As Histórias, lendas e personagens que fizeram a glória do Rock.
Quinta-feira, Agosto 04, 2005
estava estirado na poltrona ordinária do cinema em Copacabana pela sexta vez. tinha chegado cedo e via as figuras que passavam de um lado a outro. alguns conversavam baixo tranqüilos. a outros o lanterninha se limitava a apontar um lugar vago assim que chegavam. o cheiro inconfundível de maconha invadiu a sala no inicio do documentário de Janis Joplin. talvez ela dissesse que seria o ar mais apropriado. gostava particularmente de duas cenas. quando entrava no palco do festival de Monterey Pop num vestido curto, lamê solto ao corpo, mules saltinho fino, uma vasta cabeleira e o vento descobrindo o rosto.
sittin down by my window, honey/lookin out at the rain/ something come along, grabbed a hold of me/
Ball and Chain é uma performance visceral, violenta. lhe transforma em instantes. deixa amostra a alma nua. ocupa aquele espaço em que toda vida cabe. treme, geme, grita, urra, bate os pés. é única e está envolvida pela serpente que veio lhe redimir dos pecados. era a maçã, a oferenda em chamas no palco. ao mundo incongruente resta ser a platéia. seu corpo santo encharcado é um templo, a casa habitada do blues.
o último dia daquele festival de 66, marca o início da ascensão de Janis e fim da primeira grande invasão da horda hippie. conhecida como rainha da flower revolution, herdaria uma Califórnia lisérgica e milhares de alqueires verdes no céu. quando o delírio coletivo parece incontrolável e está no auge, John Lennon chega à América declarando “somos mais populares que Jesus Cristo.” a São Francisco dos 60’s fora mãe indulgente com o movimento da contra cultura. em seus parques punhados de day-trippers dividiram sonhos durante verões e outonos. (capa) bastou o lançamento do primeiro album Cheap Thrills, para que a super-nova mostrasse seu brilho intenso, se consumindo rápido. é só para não correr o risco de morrer sem realizar algo de bom ela disse um dia, já como a maior de todas. pois bastou um ano para se tornar a maior estrela da América.
nos 70’s teve o mesmo tratamento que uma top model tem nos dias de hoje. podia, por direito. mas não era o que ela realmente queria. só assumiu seu posto de estrela e esta seria sua única satisfação como a rainha branca do blues. a Vogue e a Harper’s Bazaar lhe proclamavam como o novo padrão de beleza, para a Newsweek era ela própria a novidade, a mídia especializada a idolatrava, de resto a imprensa brigava por uma declaração. com Nova York e Londres dominadas, guardava na garagem um capricho psicodélico de US$ 200 mil. um Porsche pintado com as cores do arco-íris.
beleza, dinheiro, inteligência e fama. foi alçada a condição de celebridade. novo paradigma de uma sociedade atrás de objetos de consumo. a América atônita e conservadora queria capitalizar este turbilhão de mudanças. o jeito irreverente de Janis, o impacto visual vibrante, aquela energia formidável, tudo vem bem a calhar.
tão passional e única. parece agradar a todos. em especial a Albert Grossman, maneger de Bob Dylan, a lenda viva do rock. ele vê nela a primeira mulher a se destacar, personificar o delírio coletivo da geração. a redenção para a América branca. é ela quem incorpora o blues aos 60’s. James Brown estava abrindo a socos e performances o caminho inverso, o soul sem concessões, música de negros escutada por adolescentes brancos.
o movimento hippie cultivou numa geração o contraponto à ambição materialista da sociedade capitalista. a flower revolution oferece sua versão do sonho ao alcance de todos em comunidades rurais livres, promete na volta à mãe natureza novas frentes de contato com as artes e alargam suas fronteiras até onde alcança a espiritualidade.
Janis encarna como ninguém essa ruptura com os padrões e estereótipos normais. até para a doida San Francisco ela parece uma exagerada... está no local e no momento em que as coisas aconteceram. só isso. vista como o ícone da época, a leitura é mais um engano. mas é definitiva.
grupos informais se organizavam para concertos de música ao ar livre em San Francisco e nem davam seus primeiros frutos quando Janis se chocou aos limites intolerantes do bom comportamento texano. não em casa, onde respirava ares liberais, conhecia o prazer da leitura e tinha aprendido a pensar. mas justamente pensar era mais do que se esperava de uma boa moça texana. e depois, Janis estava com a cara cheia de espinhas, engordara na adolescência e mudara de humor. respondia, tinha a língua áspera e afiada. ela se tornara uma rebelde. havia um único padrão aceitável. nada além era possível ou não existia dentro das visões médias e horizontes estreitos.Janis lia e lia de tudo. da filosofia às artes passando pela política. uma menina audaciosa que em sala de aula defende a integração racial, aos 12 anos. já sabia que era demais para mentes engessadas, para padrões médios.
Yeah, I’m gonna try – Yeah / Just a little bit harder
minha segunda cena não era propriamente a performance extravagante e louca que se podia esperar de Janis. deixava o seu recado, o testemunho de uma alma que colhera infindáveis escoriações, arranhões, quedas e tropeços na vida de princesa que nunca haveria de ser. rejeitada e excluída da própria comunidade, diluiu suas mágoas em burbom barato e destilou suas desilusões nos tons de uma poderosa garganta - assim ao natural, imitando o que gostava de ouvir.
“quando as coisas estão realmente difíceis e não há ninguém a lhe estender a mão, ninguém que lhe espere em casa, você querendo apenas se sentir mais leve, libertando a mente, o coração...sabe do que você precisa ... você precisa apenas de uma mãe carinhosa..." Try, try, try/ just a little bit harder/ So I can love, love,love, you/ I tell myself-well, I’m gonna try – yeah/ Just a little bit harder/ So I won’t lose, lose you/ to nobody else/
tentar encontrar um saída foi tudo o que essa capricorniana nascida Janis Lyn Joplin em 19 de janeiro de 1943 em Port Arthur/Texas buscava. queria a paz de casa novamente. menina tímida e obediente. cantora folk aos 16 anos. cabelos loiros quase brancos, aluna dedicada. a filha exemplar da classe média texana nunca encontrou seu caminho de volta.
se não podia ser uma bela texana seria então mais um dos rapazes. eles podiam beber, sair de carro, jogar sinuca, tocar e cantar nas praias do rio Neches até a madrugada. não chateava. podiam fazer qualquer coisa na frente dela. não ligava. riam de seus palavrões e aquele jeitão. no fim dos 50’s quando o rock and roll era morimbundo os garotos escutavam jazz e folk. aí alguém lhe falou sobre Leadbelly e de um blues em tintas country. esta ponte era o acesso que lhe faltava e é para onde correriam suas emoções desafogando a alma turva alguns poucos anos depois.
feia, bebendo muito, sem modos. não havia nada de elegante nela que andava em turma com os rapazes. vai estudar arte na Universidade de Beumont. tenta uma carreira tranqüila. também tenta secretariado, como a mãe, na Universidade de Port Arthur. não há espaço para uma diferente que talvez tivesse dormido com todos os homens e algumas meninas de Beumonte e Port Arthur. podia ter alguma verdade nos boatos. fazia pegas de carro de madrugada, brigava nos bares da fronteira e então por fim descobre as primeiras drogas que chegam no Texas. nada parece preencher a solidão de Janis. sempre casais de amigos a sua volta. menos Janis, única sem par. estava pronta para o blues. pronta para a estrada. lia muito. leu sobre jazz e blues. sobre Leadbelly e como era maravilhosa Bessie Smith. como ela cantava. como ela gritava tudo aquilo que Janis estava sentindo.
“comecei a cantar imitando Bessie Smith. copiava mesmo. mas também não fazia força. eu não dizia a mim mesma: agora vou cantar assim. eu só era. minha voz era... era bom porque eu não pensava, apenas sentia... quando eu abri a boca já saiu assim.”
“o Texas é um lugar difícil para cantores de blues, desde Leadbelly. e por isso ele viu nascer tantos intérpretes formidáveis. para mim, Janis Joplim é um deles” a nota é de Jim Langdon. The Austin Statesman. Setembro de 65. oficialmente, a primeira crítica publicada sobre Janis.
ela canta como Bessie Smith e canta totalmente diferente
os pais pressentem que se tem alguma chance estão fora dali. juntam as economias e mandam Janis conhecer Los Angeles onde faz um curso de verão. acaba em Venice, o miserável bairro dos beatniks em Nort Beach. o reduto derradeiro da beat generation. dos escritores malditos da América que elegeram o realismo como tema e a vida errante como lema. a estrada é a morada dos espíritos devassos carregada de relatos de fracassos de onde Charles Bukowski resgata a esperança da dignidade humana. por arte ou por puro heroismo literário. qualquer quartinho ao lado também tem o endereço errante de Allan Bourrogs. já lera sobre Jack Kerouac no Time, autor da antológica On The Road. é com eles que Janis se identifica, mas ninguém liga. o ambiente é freak. aprendeu a tomar bolinhas e a se aplicar.
aprende a ganhar a vida cantando blues em Austin. conhece a heroína em Nova York. começa a traficar drogas em San Francisco. as coisas estão fugindo ao controle.
“eu só queria ser uma pessoa comum. uma pessoa qualquer...” ela se encaixa numa das canções de Bessie Smith “se você não quer nada e se você se conforma, você não sente dor e sofrimento. Blues é querer uma coisa que você não tem”.vaticina encantada com o estilo do novo blues... “ é como um desabafo, onde se pode gritar e dizer às pessoas: hei eu sofro, estou ferida, eu choro...”
ferida e sofrendo com a dependência das anfetaminas, derrotada pelas drogas quer se reestruturar e decide se ajustar à cidade. fica e se forma, mas recebe o título de “O Homem Mais Feio do Campus” na Universidade do Texas.
em San Francisco todos agora são freak. vai e vive o inferno da ronda noturna pela segunda vez, até novamente voltar pra casa à procura de ajuda. faz psicoterapia. mas desconhece o meio termo. ou se torna submissa a Port Arthur ou é uma selvagem. não quer mais cantar. diz que é isso que a leva a se drogar. tem medo de que as drogas a matem.
os ares de Nort Beach tomaram conta de San Francisco. a transação livre e alucinada daqueles junkies com o som novo. o blues eletrificado. havia uma banda recém formada que a queria. Trevis Rivers veio buscá-la para a Big Brother & Holding Company de Chet Helms. só ela poderia cantar a nova música. ela dizia que achou ótimo porque “o Travis era incrível na cama e logo saiu me agarrando...não transava há 7 meses...”. mas na verdade estava nervosa e com muito medo. iria cantar profissionalmente. fracassara novamente como a garota serena e bela do Texas. a velha estrada se abria e os seus demônios lhe esperavam depois da ponte. quando a banda a viu ficaram arrasados. ela era só uma texana desleixada e tinha até um ar maluco. esperavam por uma deusa sexy...isso durou até que ela começou a cantar. aí então eles mudaram todos os planos que tinham feito.
todo o pessoal da banda vai morar na comunidade rural de Laguanitas. é lá que Janis descobre que não precisa ser a boa texana para ser aceita. as garotas lhe ensinam como se vestir. elas usam rendas, flores, colares, cabelos soltos e perfume patchuli. era fácil. foi natural. Janis aprendeu o que fazer para ser compreendida mas não como ser amada. todos tinham seus pares. menos Janis. era quem transava todos. porque ela era totalmente livre. isto é, não tinha ninguém.
a liberdade era a outra face da solidão de Janis. para estancar suas antigas feridas até que suporta o combate um tempo mas cai diante de outro velho demônio: o álcool, que lhe ajuda a só esquecer. depois vem as anfetaminas e enfim a heroína. é assim que ela domina a cena dos parques de San Francisco do verão ao outono de 66 até explodir em naquela noite em Monterey.